Homilia de domingo, 24/02/08 PDF Imprimir E-mail
Escrito por Pe. Fernando   
Sex, 29 de Fevereiro de 2008 14:45

3°. domingo da Quaresma

 

 

Se conhecesses o dom de Deus...

 

Calor de meio dia e um homem, com sede, sentado à beira do poço, esperava por alguém. Aparece a samaritana e o homem lhe pede um copo d’água. “Dá-me de beber”. É Jesus que esperava a samaritana para revelar-lhe o dom de Deus. Jesus toma a iniciativa de falar com ela. E é assim porque a sede de Jesus se manifesta antes da nossa sede. Ele tem sede da nossa sede, e quer de todo coração que nós o queiramos. Foi por isso que ele se encarnou: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou...”. Aqui tocamos o nível mais profundo do coração humano. O que nos estimula a que superemos nossos próprios limites é nossa ânsia por vida e por plenitude. Essa nossa ânsia encontra-se com a proposta de um Deus que vem ao nosso encontro e não se cansa de nos procurar para dizer: “Sou eu, que estou falando contigo”...

 

A samaritana simboliza o que acontece no coração humano. Esse coração que insaciavelmente vai passando de coisa em coisa, de marido em marido, sem nunca se contentar e satisfazer. Nem imagina que possa haver outra “água” capaz de satisfazer a sua cansativa e insaciável busca por felicidade e vida. Confia apenas nos recursos humanos que tantas vezes frustram. Nem imagina, ou talvez nunca tenha levado a sério aquela conversa sobre um Messias que “vai nos fazer conhecer todas as coisas”. Um pouco como acontece também com cada um de nós: ansiosos por vida plena, apelamos para águas que não matam nossa sede, esnobando com indiferença e mesmo hostilidade os grandes dons que recebemos de Deus desde crianças: o batismo e a nossa fé. 

 

A iniciativa é de Jesus, e ele nos espera paciente para provocar-nos e converter-­nos, para despertar nossa sede e mostrar-nos como saciá-la. A mulher samaritana procura a água daquele poço e Jesus lhe fala de outra água: “todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei nunca mais terá sede.”

 

E Jesus nos diz: “olha, tua sede é bem mais profunda; teu coração anseia por horizontes bem mais amplos; somente a totalidade, a infinitude e a eternidade poderão te satisfazer e saciar!” 

Esse Deus que sacia não está longe de nós. Está aqui, perto de nós. Basta que nós o reconheçamos. É o próprio Jesus em pessoa. Nós o reconhecemos a partir da nossa fé. Esta fé que recebemos e que talvez tenhamos que aprofundar e conhecer melhor. 

Jesus não apenas corresponde às nossas expectativas, mas ele aumenta e sacia toda sede que possamos ter; ele nos faz levantar os olhos, ver mais longe e descobrir a eternidade. “A água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. Ele é a fonte de vida que nos sacia. 

 

O encontro com Jesus cria um novo tipo de relacionamento com ele, uma nova religião, vivida na amplitude e no espaço da profundidade do coração das pessoas e não mais limitada a lugares. “Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade”. A expressão em espírito quer significar na força do Espírito Santo. Sim, porque não conseguimos alcançar Deus a não ser pelo Espírito Santo. É ele que cria em nós a plena experiência da divindade que nos faz dizer Abba, Pai. 

 

É o Espírito que cria e sustenta em nós a verdadeira esperança. O apóstolo Paulo diz que “a esperança não decepciona porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações por meio do Espírito que nos foi dado” (2a.leitura). Devemos nos colocar à vontade e confiantes diante de Deus como filhos e não com o medo do escravo com relação a seu dono.  

 

Os tempos que vivemos às vezes nos fazem sentir sede como se estivéssemos num deserto seco e árido de esperanças e de certezas: notícias que ouvimos, fatos que presenciamos, experiências que vivemos. Nesse deserto cada um de nós é um pouco como a samaritana em busca de água para matar a sede. E lá no segredo do nosso coração perguntamos: afinal, onde está Deus? Será que ele quer nos matar de sede? Essa também foi a reclamação que ouvimos o povo fazer a Moisés na primeira leitura.

 

Bem, o Evangelho de hoje nos mostra Jesus esperando pacientemente por cada um de nós nesse deserto, à beira de um poço; ele que é a fonte de toda Vida e de toda misericórdia e bondade.  

 

Não podemos faltar a esse encontro...

Última atualização ( Ter, 04 de Março de 2008 00:49 )