Painéis do Altar PDF Imprimir E-mail

 

Expressão Bíblica do Amor de Deus

As pinturas em cores vivas e harmoniosas da parede de fundo do altar de nossa Paróquia chamam a atenção não só das pessoas que entram pela primeira vez em nossa Paróquia, mas também de todos os que aqui freqüentam há longos anos. Poucos, no entanto, sabem o significado bíblico dos cinco painéis que ali são retratados.

Essas belas obras de arte foram confiadas pelo Pe. Geraldo Pelzers, MSC, responsável pela construção do Santuário das Almas, ao pintor italiano Antonio Maria Nardi, que em sua arte, retratou em cinco painéis cenas que remetem a um aspecto significativo em nossa religião: o sacrifício como prova de um grande Amor.

Desde os tempos primitivos, o homem acatava um Deus supremo e relacionava a expressão de seus sentimentos religiosos a sacrifícios – atos de culto exterior, que sob o símbolo de uma oferta visível, pretendiam estabelecer uma união mais íntima entre o homem e Deus.

No painel do centro, Nardi retrata a morte de Jesus na cruz. Para os painéis laterais, escolheu no Antigo Testamento, três exemplos que prefiguram a grande prova de amor de Cristo: as ofertas de Caim e Abel, Melquisedec e Abraão. Para o quinto painel pintou a primeira celebração da Santa Missa na Terra de Santa Cruz, tendo como participantes nossos irmãos e irmãs indígenas, legítimos donos desta nossa terra.

Estas belas obras de arte que expressam passagens bíblicas extremamente significativas do amor de Deus pelas suas criaturas merecem toda nossa atenção e reflexão pelas mensagens que nos querem transmitir e sobre as quais devemos sempre refletir.

 

Painel do Centro do Altar

Jesus Cristo no Monte do Calvário Cordeiro Imolado “Páscoa da Cruz: Dia de exaltação do Cristo Senhor, de sua glorificação na Cruz.”

Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, criou a terra para que o homem usufrua dela e possua vida plena com a única condição de observar o projeto de vida e liberdade, em que a vida aconteça em clima de fraternidade e partilha. O homem não consegue ser fiel ao projeto de Deus e em sua auto-suficiência produz escravidão e morte.

Deus, sempre amoroso, promete uma descendência comprometida com seu projeto. Para mostrar o caminho, envia Jesus Cristo, o Deus homem, que aceita a condição humana para demonstrar o comprometimento de Deus com a vida, garantida por sua bondade, pregação e conduta. A atividade de Jesus - de justiça, paz e vida plena e digna para todos -, contraria os poderosos de seu tempo, levando-o à morte – sacrifício que restaura a amizade entre Deus e a humanidade.

A morte na cruz não é o fim. Jesus continua vivo, presente e atuante na comunidade cristã e seu destino ilumina o nosso. Com a ressurreição, Deus se revela como “o Deus dos vivos” e como fez com Jesus, ressuscita todos os mortos.

Aos pés da cruz, vemos no painel, instrumentos do suplício: martelo, pregos e lança. Ainda, três mulheres e dois homens: a mãe de Jesus; a irmã da mãe dele, Maria de Cleófas e Maria Madalena; João, o único dos doze apóstolos e o centurião, chefe dos soldados que crucificaram Jesus, aquele que disse: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus.” (Mc 15,39 – Mt 27,54).  A mãe de Jesus, a nova Eva, representa o povo da Antiga Aliança que se conservou fiel às promessas e espera pelo Salvador. João representa o novo povo de Deus, formado pelos que aderiram a Jesus.

Na trave vertical da cruz, pode-se observar a inscrição INRI, iniciais de “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”, (Jo 19,19),  frase que Pilatos mandou escrever. Jesus é o rei que entrega sua vida por todos.

Na parte de cima do painel, alguns anjos com um grupo de figuras humanas, para nos lembrar o que Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre.” (Jo 11,25). Os falecidos de todos os tempos tem a felicidade de participar da vida celestial após a vida terrestre, conduzidos por anjos: ”Ao paraíso conduzam-te os anjos e te introduzam na cidade santa de Jerusalém”, nos lembra o texto das cerimônias litúrgicas da ressurreição que a  Igreja reza.

 

1º Painel à Esquerda

Oferta de Abel e Caim: O rompimento da Fraternidade

O primeiro painel à esquerda de quem entra na Igreja representa a oferta de ABEL e CAIM. Mostra Abel em atitude de oração, oferecendo a Deus um cordeiro que está amarrado e colocado em cima de uma pedra. Mais para trás, o fogo, já aceso e no primeiro plano, uma faca bem grande para matar o animal. No outro lado do painel, uma porção de frutas, produtos da lavoura de Caim, que se mostra cheio de raiva, ao contrário de seu irmão Abel que olha para o alto com serenidade. Caim apoiado na árvore procura conter sua ira. A folhagem estilizada, em cores escuras, parece uma nuvem ameaçadora caindo sobre os dois, mas vindo do lado de Caim.

A Bíblia, em Gênesis (Gn 4,3-7) diz: “Depois de algum tempo, Caim apresentou produtos do solo como oferta a Javé. Abel, por sua vez, ofereceu os primogênitos e a gordura do seu rebanho. Javé gostou de Abel e de sua oferta, e não gostou de Caim e da oferta dele. Caim ficou então muito enfurecido e andava de cabeça baixa. E Javé disse a Caim: Por que você está enfurecido e anda de cabeça baixa? Se você agisse bem andaria com a cabeça erguida; mas, se você não age bem, o pecado está junto à porta, como fera acuada, espreitando você. Por acaso, será que você pode dominá-la?

Por que Deus não aceitou o sacrifício de Caim?

A oferta, que tem por finalidade adorar a Deus, agradecer, pedir perdão ou pedir graças, não pode ser somente um ato exterior, sem sentido, mas a manifestação de uma atitude interior.

A História nos lembra que Caim matou Abel. O relacionamento entre esses irmãos é o oposto do que Deus espera entre os homens – a fraternidade, em que cada um é protetor de seu próximo. A auto-suficiência introduz a rivalidade e a competição nesse relacionamento: a fraternidade é destruída e, em vez de proteger, gera a violência: o homem fere e mata o seu próximo. A primeira vez que a palavra pecado aparece na Bíblia é num contexto social. (v.7)

Caim simboliza todo o homem que, livre e conscientemente, mata seu semelhante, demonstrando afastamento do Deus de amor, do Deus da Vida.

 

2º Painel à Esquerda

A Oferta de MelquisedecRei da Justiça e da Paz

O segundo painel da esquerda para a direita representa a oferta do rei Melquisedec.

A Bíblia diz em Gênesis  (Gn 14,17-20):  “Quando Abrão voltou, depois de ter derrotado Codorlaomor e os seus aliados, o rei de Sodoma foi ao seu encontro no vale de Javé, que é o vale do rei Melquisedec, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo. Levou pão e vinho, e abençoou Abrão, dizendo: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que criou o céu e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os inimigos a você. E Abrão lhe deu a décima parte de tudo.

Melquisedec aparece na Bíblia sem genealogia, sem descendência, ninguém sabe de onde ele é rei e sacerdote. A Carta aos Hebreus (Hb 7,1-3) assim se expressa: “Melquisedec era rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo. Ele foi ao encontro de Abraão, quando este voltava vitorioso da batalha contra os reis. Ele abençoou Abraã, e Abraão lhe deu a décima parte de tudo. Traduzido, o nome Melquisedec significa “rei de justiça”; além disso, ele é rei de Salém, isto é, “rei da paz”. Sem pai, nem mãe, sem genealogia, sem começo nem fim de vida como o Filho de Deus, Melquisedec permanece sacerdote para sempre”.

Ele parece ser eterno, assim como Jesus Cristo. Seu sacerdócio não está ligado à classe sacerdotal dos descendentes de Levi, nem à descendência de Abrãao. Por isso, seu sacerdócio é muito mais amplo. É universal. Ele é rei de justiça e paz. Isaías (Is 32) usa a mesma descrição: “Ele será um rei de justiça e paz” para profetizar sobre Cristo.

Para o sacrifício, Melquisedec usa pão e vinho, o que não era comum para a época. Cristo instituiu a Última Ceia usando pão e vinho.

No painel, a figura de Melquisedec aparece como um sacerdote velho, mas cheio de força e vida. Apesar da oferta ser para celebrar uma vitória na guerra, o quadro só apresenta serenidade e paz.

Ao redor de Melquisedec, vários levitas, ajudantes do sacrifício. Quando relacionamos Melquisedec com Cristo, relacionamos os levitas aos apóstolos, não só os do evangelho, mas os de todos os tempos – os sacerdotes que, em nome de Cristo, oferecem o sacrifício do pão e do vinho.

Atrás dos levitas, levanta-se a selva, estilizada, como se fossem as construções de nossas cidades, onde os sacerdotes, além de oferecerem o sacrifício do pão e do vinho, devem ser profetas de justiça e paz.

A frente do quadro, a partir do altar de Melquisedec, parece simbolizar uma abertura para nosso mundo.

Além de uma mensagem de paz, o painel pretende anunciar a eternidade do sacerdócio em Cristo.

Na ordenação do sacerdote, a Igreja diz: “Tu és sacerdote eternamente segundo a ordem de Melquisedec”. O sacerdote é a continuação de Cristo entre nós para oferecer o sacrifício a Deus para todo o povo.

 

1º Painel à Direita

A Oferta de AbraãoA grande prova  de  Fé, Obediência e Confiança

O primeiro painel à direita de quem entra na Igreja representa a oferta de Abraão. A Bíblia nos diz em Genêsis (Gn 22,1-14):“...Deus pôs Abraão à prova, e lhe disse: ‘Abraão, Abraão!’ Ele respondeu: ‘Estou aqui!’. Deus disse: ‘Tome seu filho, o seu único filho Isaac, a quem você ama, vá à terra de Moriá e ofereça-o aí em holocausto, sobre uma montanha que eu vou lhe mostra’.  Abraão se levantou cedo, preparou o jumento, e levou consigo dois servos e seu filho Isaac. Rachou a lenha do holocausto, e foi para o lugar que Deus lhe havia indicado. No terceiro dia, Abraão levantou os olhos e viu de longe o lugar. Então disse aos servos: ‘Fiquem aqui com o jumento; eu e o menino vamos até lá, adoraremos a Deus e depois voltaremos até vocês’.  Abraão pegou a lenha do holocausto e a colocou nas costas do seu filho Isaac, tendo ele próprio tomado nas mãos o fogo e a faca. E foram os dois juntos. Isaac falou a seu pai: ‘Pai’.  Abraão respondeu: ‘Sim, meu filho!’  Isaac continuou:  ‘Aqui estão o fogo e a lenha. Mas onde está o cordeiro para o holocausto?’ Abraão respondeu: ‘Deus providenciará o cordeiro para o holocausto, meu filho!’  E continuaram caminhando juntos. Quando chegaram ao lugar que Deus lhe indicara, Abraão construiu o altar,  colocou a lenha, depois amarrou seu filho e o colocou sobre o altar, em cima da lenha.Abraão estendeu a mão e pegou a faca para imolar seu filho. Nesse momento, o anjo de Javé o chamou lá do céu e disse: ‘Abraão, Abraão!’ Ele respondeu:  ‘Aqui estou!’  O anjo continuou: ‘Não estenda a mão contra o menino! Não lhe faça nenhum mal!  Agora sei que você teme a Deus, pois não me recusou seu filho único’.  Abraão ergueu  os olhos e viu um cordeiro preso pelos chifres num arbusto; pegou o cordeiro e o ofereceu em holocausto no lugar do seu filho. E Abraão deu a este lugar o nome de ‘Javé providenciará’.  Assim, até hoje se costuma dizer: ‘Sobre a montanha, Javé providenciará’”.

Nardi, o pintor dos painéis,  praticou uma liberdade artística na colocação do jumento, do lado direito, quando, na história, ele tinha ficado embaixo com os servos.

Deus pede a Abraão um ato de fé, que confirme sua obediência – sacrificar seu único filho, seu herdeiro e pai de uma descendência numerosa conforme Deus lhe tinha prometido. Ele obedece. O pintor retrata no rosto de Abraão sua luta interior.

A teologia sempre viu na pessoa de Isaac uma prefiguração de Jesus Cristo. Isaac era único filho de Abraão, portador da promessa, por parte de Deus, de ter grande descendência; o sacrifício era em cima de um monte e ele carregou a lenha para o sacrifício. Jesus Cristo é o Filho de Deus, que realizou a promessa de ter um grande povo – o povo de Deus; o sacrifício de Cristo ocorreu em um monte, o Calvário, e ele mesmo carregou o lenho da cruz.

A fé de Abraão, que arriscou seu próprio filho para seguir o que era para ele a vontade de Deus, talvez nos ajude a estar sempre alerta aos sinais que Deus nos envia, para aprofundar o nosso relacionamento com Ele e no atendimento ao seu projeto de vida.

 

2º Painel à Direita

Celebração da Primeira Missa na Terra de Santa Cruz

A frota sob a liderança de Pedro Álvares Cabral avistou terra em 21 de abril de 1500; no dia 23 de abril, Nicolau Coelho, foi o primeiro a pisar em terra brasileira; no dia 26 do mesmo mês, o Frei Henrique de Coimbra, guardião dos frades que viajavam com Cabral, rezou a primeira missa na terra descoberta. No dia 1º de maio de 1500, celebrou uma segunda missa, como cerimônia de posse, em frente a uma grande cruz que Cabral implantou como marco de conquista e soberania portuguesa, o que leva a crer que o mural representa mais a segunda missa.

O autor simbolizou neste painel a dedicação do Brasil a Cristo, que recebeu como seu primeiro nome Terra de Santa Cruz.

A escolha do tema deste painel, junto aos temas bíblicos dos outros, foi sugestão do Pe. Geraldo Pelzers,  segundo o artista Antonio Maria Nardi, que acreditava no fato dos brasileiros gostarem de lembrar e solenizar fatos de sua história e da importância de retratar a Santa Missa e a presença do povo indígena, representantes legítimos desta terra de Santa Cruz que deve renovar em cada um de nós o compromisso social e solidário com os nossos irmãos e irmãs indígenas.

*Autora:

Inês Margarida Willkomm

*Colaboradoras: 

Erika Willkomm

Tânia Maria Ayd

Michelle Sena

Carla Guedes

 

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